Desde, quando nada, os anos 1960, ou seja, há mais de meio século, o Poder Público trata a questão das drogas pela repressão, especialmente, sobre os viciados, isto, na maioria esmagadora dos países. Talvez a visão religiosa de que o viciado seja um pecador e ponto final, ou seja, pau nele. Deixei de fora a famosa Lei Seca implantada nos Estados Unidos nos anos 1930 pela mesma visão religiosa e, ainda, para cuidar dos viciados em álcool produzidos pela grave crise econômica do capitalismo naquela época. Para começar a clarear o raciocínio a Lei Seca foi um retumbante fracasso. A única coisa que produziu de notável, além do envenenamento de muitos consumidores pela péssima qualidade do produto (proposital para aumentar os lucros) e ficou na história, foi Al Capone...
De lá para cá legalizaram o álcool, retornando sua produção e comércio às mãos das empresas capitalistas que voltariam a lucrar com ele, e muito, apesar de seu consumo ser um “pecado”. Como Deus, segundo os envangélicos, gosta do lucro, tudo bem. Os consumidores, e os viciados que se danem...
Ainda de lá para cá, produção e consumo do álcool subiu até a enésima potência. Mas, claro, “dentro da lei’. E mais, com o advento da TV vemos nas telonas, a toda hora, que os que bebem determinada marca de bebida, seriam vitoriosos, alegres, conquistam homens ou mulheres bonitas, ou seja, “dão de dez” na vida. Deixemos de lado as cirroses, o câncer na boca ou no estômago, os espancamentos de familiares, as brigas e assassinatos de final de semana, as mortes ou invalidez no trânsito, etc., porque, infelizmente o capitalista lucra cada vez mais, mas, “Deus quer assim”, o que se há de fazer...
E o cigarro? Este só passou a ser incomodado pelos “politicamente corretos” nos últimos 50 anos. Antes disso, como diriam os russos, “nitivo niet”, ou seja, nada nada. Ao contrário, os grandes astros de Hollyood, exibiam-se glamorosos fumando na tela para, assim como quem não quer nada, incitar seu consumo. Sim, as pessoas bonitas, ricas, vitoriosas, e os “heróis” fumam, claro. Logo, por que, eu, um “manesinho” não posso fumar? Quem sabe fumando me torno um deles? Ou sonho acordado que me tornei?
Observação: até 30 anos passados eu fumava cerca de 90 cigarros por dia, e já cheguei a beber com um amigo, uma garrafa de aguardente em meia hora... Logo, não sou um moralista, muito menos “Madalena arrependida” porque, se não fumo há mais de 26 anos, continuo bebendo. Claro que não uma garrafa de pinga em meia hora, mas, talvez em um ano ou mais...
No passado, muitos comunistas e pessoas de esquerda achavam que era uma boa “exportar” a revolução. Outros mantém essa fé ou propósito até hoje. Os que entraram na “fria” das pregações de Regis Debret se deram mal. Por causa dessas teses ficamos sem Che Guevara que se entusiasmou com a idéia de “um, dois, três, mil vietnans!”. Resultado de tudo isso? Perdemos o dr, Ernesto e muitos outros companheiros bons que podiam ter continuado a dar sua valorosa contribuição à luta pelo socialismo por muito mais tempo.
Paralelamente, o povo estadunidense se considera dono de um tal de “destino manifesto” de exportar a democracia para o mundo inteiro. Não conheço a história bem, logo não sei quem foi ou foram os autores desta idéia de jerico lá no norte da América. O que sei, é que, de 1945 para cá os Estados Unidos bombardearam nada menos de 27 nações para “transferir” as idéias democráticas. Que eu saiba, perdeu todas. Conseguiu, claro, desgraçar as populações daqueles países, matando homens, mulheres e crianças para nada. Na fase atual de seu declínio econômico, político e social, então, espalha com avidez o caos e a morte pelo mundo. Ultimamente temos os exemplos do Afganistão e Iraque, onde não foram vitoriosos mas conseguiram estabelecer o caos. Na Líbia, ele e seus comparsas seguem pelo mesmo caminho.
Porque o religioso e “democrático” povo e governo estadunidenses, ao invés de exportar algo que não conseguem, até porque os supostos “beneficiários” não acreditam nisso, porque, repito, eles não se empenham em doar excedentes agrícolas para mata a fome dos milhões de famintos da face da terra? Ou seus colossais recursos tecnológicos da área da saúde para curar os milhões ou bilhões de enfermos?
Voltando, ainda uma vez, ao “de lá para cá”, o consumo de drogas ilegais cresceu vertiginosamente. E a maioria esmagadora dos países tenta acabar com ele via repressão dos viciados, além, claro, dos pequenos traficantes. E temos que, em cerca de mais de 50 anos, a repressão não deu em nada. Absolutamente, nada. O tráfico cresce e o consumo mais ainda. Penso que, já passou da hora de repensarmos o problema. Ora, se a repressão não consegue acabar com o consumo de drogas que tal fazer outra coisa?
Por exemplo, fala-se muito em combater a corrupção. Mas, via repressão dos corruptos que são em maior número que os corruptores. Se você for a feira e colocar uma barraca para vender doce de jiló, e ninguém gostar de doce de jiló, você não venderá nada. Logo, se ao invés dos corruptos combatermos os corruptores não seria melhor? Mais difícil sim, porque são poderosos e desfilam nas colunas sociais. Mas, se ninguém quiser me comprar, como conseguirei vender-me?
Penso que, o problema das drogas poderia ser tratado da seguinte forma:
a) liberar a venda delas através da produção e comércio legalizados;
b) criar salas para consumo de drogas, agora lícitas, onde agentes de saúde poderiam fazer um trabalho com os viciados que o desejassem, para livrá-los do vício SEM INTERNAÇÕES; além de examinarem a qualidade delas e alertarem os consumidores para recusá-las.
Ou seja, o tratamento espontâneo e acontecendo no seio da sociedade, sem internações forçadas, teria mais condições de dar certo porque não se colocaria o viciado numa redoma de vidro da qual, ao sair, dá de cara com o mundo real, com todos os problemas que enfrentava antes, esperando-o pacientemente....
Legalizada a venda, e promovido o tratamento espontâneo (sublinhamos para quem quisesse), o que restou de tráfego poderia se combatido com mais êxito.
E, anotem, o objetivo não é salvar ninguém do vício. Tanto na , Cracolândia como nos morros cariocas o objetivo principal é o imobiliário. Quem viver verá hotéis de 10 estrelas e mansões de alto luxo lá construídos...
Abro um espaço aqui para dizer que, vício em drogas, assim como outras coisas de bom e de ruim nada têm a ver com Deus. Como disse-me um amigo recentemente: “Zé, Deus anda muito ocupado ultimamente e não tem tempo de ficar se preocupando com a gente”...
José Augusto Azeredo
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