AstecaInforma
ANO XVI - Nº 177 JAN/2012
A privataria tucana
Amaury Ribeiro Jr.“Trecho 1 : O início de tudo

A espionagem de José Serra, o contra ataque de Aécio Neves e a disputa entre Minas Gerais e São Paulo
Ao me apresentar ao Estado de Minas, jornal do mesmo conglomerado do Correio Braziliense, recebo uma pauta desafiadora. O que não imagino é que ela servirá para me situar, três anos depois, sob os holofotes da mídia. Vai contribuir para me colocar, a contragosto, entre os personagens da eleição presidencial de 2010.

O que me pedem é o seguinte: descobrir quais são os arapongas que estariam no encalço do governador de Minas Aécio Neves durante seus discretos roteiros sentimentais pelo Rio de Janeiro. Segundo o relato, 1aécio é vigiado e tem seus movimentos seguidos por agentes arregimentados por seu adversário na disputa dentro do PSDB pela pré-candidatura à Presidência da República. O então governador paulista, José Serra, trabalhava nos bastidores para alijar o concorrente mineiro do páreo.

De posse de um dossiê, Serra teria mandado um recado, por intermédio de seus emissários, para que Aécio jogasse a toalha. Ou seja, com seu estilo inconfundível, estaria chantageando o neto de Tancredo Neves.
O conteúdo do suposto dossiê nunca me foi revelado. Mas vale acentuar que a pauta não nasceu de um boato qualquer. Ao contrário, surgiu de informações dignas de todo crédito transmitidas pela assessoria do governo mineiro ao Estado de Minas que, aliás, nunca negou sua condição de aecista de corpo e alma.

Ao receber a pauta, retomei logo o contato com “Dadá”. Queria que ele apurasse dentro da comunidade de informações quem eram os agentes engajados e atuando na pré-campanha serrista para detonar Aécio. “Dadá” levantou que o trabalho de campo era liderado pelo funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Luiz Fernando Barcellos. Conhecido como “agente Jardim”. Barcellos teria sido levado para o grupo de inteligência de Serra pelo deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ), também delegado da Polícia Federal e casado com uma prima do tucano Andrea Matarazzo, amigo de Serra há muitos carnavais.

Dadá recebeu a informação por meio do delegado aposentado da Polícia Federal Onézimo das Graças Souza, outra figura que, por vias transversas, também desfrutaria de seus 15 minutos de glória no embate eleitoral de 2010.
(...) No início de 2008, ao analisar os primeiros papeis recolhidos na Junta Comercial de São Paulo, na Justiça e nos cartórios de títulos de documentos da cidade, percebi que outro personagem entrava na história e, do mesmo modo, vinculado a Serra. O corretor Alexandre Bourgeois, genro do então governador de São Paulo, usara a mesmíssima metodologia bolada pelo tesoureiro do sogro (...)
(...) Ao flagrar as transações de Bourgeois, cometi uma tolice quase do mesmo tamanho daquela de retornar à Cidade Ocidental após ter denunciado o assassinato de adolescentes pelo narcotráfico. Telefonei para a assessoria de imprensa do governador paulista. Queria um pronunciamento dele sobre o assunto. A resposta não tardou. Serra agiu para tentar barrar a matéria ainda em fase de apuração. Telefonou em seguida para o então editor de política do Correio Braziliense, Alon Feuerwerker. Ao ouvir de Feuerwerker que a matéria estava sendo tocada por Minas Gerais e para o Estado de Minas, Serra quis falar com a direção do jornal e com a irmã do governador, Aécio Neves, sem sucesso.

Decidiu, então, ligar diretamente para Aécio, buscando acertar arestas. Aparentemente, funcionou.
Faltava, no entanto, acalmar o comando do jornal mineiro, inconformado com a arapongagem de Itagiba e com o artigo “Pó pará governador”, plantado pela entourage de Serra em O Estado de São Paulo para desgastar o governador mineiro. Publicado em 28 de fevereiro de 2009, e assinado pelo colunista Mauro Chaves, já falecido, o libelo antiaecista ironizava o desejo do governador mineiro de definir logo, por meio de prévias o candidato do PSDB ao Planalto. No tucanato paulista, a intenção foi interpretada como um crime de lesa-majestade. Sem nunca ter ocultado seu serrismo, o Estadão dispensou o protocolo e disparou um torpedo”.

(Fonte: Revista Carta Capital 14/12/11, nº 676
Livro A privataria tucana de Amaury Ribeiro Jr.)
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